O fio da meada

O fio da meada

21 de julho de 2021

“Eu não sou obrigado a aceitar”, foi o que ouvi de meu pai quando falei que namorava uma menina. Ele estava afundado na cadeira da mesa de jantar. Mesa que já não é a mesma da minha adolescência, mas que cumpre a mesma função da anterior, ser palco para suas torturas psicológicas, disfarçadas de conversas, em que só um fala e pergunta, enquanto o outro ouve e responde.

Na cadeira de escritório amarela improvisada – assim como quase tudo na casa – como de jantar, sua face e corpo estavam pesados, aterrados. Dava pra sentir e ver o peso daquelas suas próprias palavras em seu próprio corpo, como tiras de carne que saem pelos lados do espremedor, buscando escapatória.

Ao contrário de anos atrás – quando eu era adolescente ou estava no início da fase adulta, em que eu sentava frente a frente com ele, na mesa iluminada por uma luz central, servindo de depósito de perversidades –, dessa vez eu estava em pé, olhando de cima para baixo, encostada na parede, mantendo um distanciamento da mesa onde meu pai estava sentado quase à minha frente, enquanto a minha mãe estava do meu lado direito, ainda mais distante, na ponta da mesa. A formação usual de quando o palco de tortura se transforma em mesa de jantar.

“Eu não sou obrigado a aceitar”. O drama e a rejeição estavam carnificados nele. Ao ouvir isso, nenhuma surpresa para mim. Semanas antes de iniciar aquela conversa, apenas senti que deveria informá-los. Aliás, o meu interesse por mulheres não era surpresa para ele, mas somente para minha mãe, que me ouvia falar desse tema pela primeira vez.

Me senti impulsionada, ou melhor, obrigada a contar meu interesse por mulheres a meu pai, aproximadamente, quatro meses antes, depois de uma tarde inteira de discussão com meu companheiro naquela época, em que entrei em um estado profundamente alterado, numa performance de ódio e revolta, quando decidi que deveria sair de vez e chamei o meu pai para vir me resgatar da antiga casa. A explosão final acontece após anos de um relacionamento pautado por ciclos tóxicos – que me fizeram acreditar ser bipolar, diante da regularidade com que percebi minhas alterações de humor que se intensificaram no casamento (da extrema felicidade para a extrema tristeza), além de um comentário irresponsável de uma psicóloga (ainda na segunda sessão), quando iniciei, inconscientemente, a busca do meu resgate –, até então de origem incompreensível para mim.

Ao chegar para me buscar, meu pai, mostrando a habitual calma, compaixão e abertura para com os homens, tal qual um juiz complacente, sentou-se para ouvir as palavras do meu ex-companheiro, que logo se apressou em dizer que explicaria a meu pai o motivo de eu ter pedido ajuda. Que logo se apressou em dizer que explicaria a meu pai o motivo de eu ter pedido ajuda. Ele explicaria a meu pai o motivo de eu ter pedido ajuda. Ele explicaria a meu pai. Ele explicaria.

E meu pai se acomodou para ouvi-lo.

Meu ex-companheiro se sentou no sofá, ao meu lado, mais próximo de mim. Eu me sentei numa das pontas da mesa de jantar e meu pai na outra ponta. O teatro estava formado. Ali havia um pacto invisível que eu ainda não era capaz de captar. A sala mobiliada por uma mesa e um sofá se tornou uma peça de homens civilizados, em que um falava e o outro ouvia com aparente – digo, aparente – maturez. Enquanto eu, a mulher, com aparente – digo, aparente – imaturez, imediatamente, me tornei uma mera coadjuvante naquela encenação.

Logo no início de sua versão – para justificar o fato de eu ter pedido ajuda para meu pai vir me buscar e da consequente separação –, como prólogo, meu ex-companheiro comentou que havia um assunto que ele não iria comentar e que, “se eu quisesse”, eu falaria com meu pai posteriormente. Nessa encenação, o jogo também é fundamental para o abusador. O jogo de palavras – mas, especialmente, o jogo de silêncios. O jogo do não dito é a carta coringa; é aquele texto improvisado, clichê, batido, mas que provoca alguma reação. E qualquer resto de carta, ou melhor, sobra de reação da pessoa manipulada é reaproveitada pelo abusador como quem fabrica uma salsicha. “Por que ele comentou isso?”, imediatamente tentei prever o jogo que estava se armando ali. Eu tive de aprender a raciocinar como uma jogadora de poker para que eu pudesse manter alguma sanidade em 13 anos de ciranda macabra que, depois, descobri que já a danço há décadas.

Seria o blefe uma tática macho?

O fio da meada. Este é o nome que dei para a técnica que passei a empregar na tentativa de diminuir os danos provocados quando se dialoga com um perverso, que usualmente manipula a proposta e tema da conversa para confundir a vítima, e o uso de gaslighting é fundamental para o abusador, que tem como objetivo não resolver algo, não dar um fim proveitoso, mas se livrar de uma situação e, principalmente, enlouquecer, deixar a vítima insegura, descreditá-la ou desacreditá-la.

“Por que ele comentou isso?”. Apesar de essa ter sido a primeira pergunta que surgiu em minha mente, uma reação automática, eu não estava mais interessada em captar o fio da meada. Eu só queria ir embora dali. Eu já tinha sido bastante torturada, silenciosamente. Já tinha chegado a um estado tão alterado e explodido a um nível tão extremo, tão fora de mim, já tinha repetido e gerado tantos comportamentos abusivos e tóxicos também, que a última coisa que me interessava naquele momento era continuar sendo o suprimento da perversidade de meu ex-companheiro – que em um período não muito distante, ainda nesta minha última casa macabra, me chamou para assistir The handmaid’s tale, na Netflix.

Por que eu ia querer assistir uma história sobre violência contra a mulher se eu já tinha meu papel no meu próprio seriado de episódios intermináveis? Aliás, violência psicológica também é violência, mulheres. Não esqueçam disso.

Eu já estava na 13ª temporada do meu seriado. Umas três temporadas antes, abri o jogo sobre a minha bissexualidade, falei do meu interesse por outra pessoa e pedi separação. Mas a minha sinceridade só forneceu cartilagem pra fabricação de salsicha. Não foi o suficiente para nenhum dos dois. A ciranda macabra precisava rodar. Porém, ao me conscientizar do papel que eu estava desempenhando naquela encenação de casamento, cheguei a me sentir no limite daquele estado de sofrimento – embora as semanas seguintes tenham me mostrado que eu ainda ia aprender muito sobre amor próprio, após retornar ao ciclo novamente, para me livrar de um outro ciclo abusivo ainda mais antigo, o dos meus pais.

“Por que ele comentou isso? Não importa”. Antes que o jogo que meu ex-companheiro iniciou, com aquela fala, se enredasse na minha mente e disparasse inseguranças em mim (como aconteceu em vários momentos que pedi separação) e, consequentemente, me desestabilizasse, soltei: “Painho, o que ele comentou sobre algo que tenho que falar é que eu me interessei por uma mulher”, e expliquei brevemente como aconteceu e os impactos que tinha gerado no relacionamento. Provavelmente, o tempo do meu pai parou naquele momento. Mas ele tomou a palavra com uma calma e maturidade ficcionais, olhando boa parte do tempo para meu ex-companheiro, e em determinado momento de sua fala, declarou: “…é porque ela agora odeia homem”. Eu tive de sair um pouco do meu papel secundário: “Não, painho. Eu não odeio homem. Eu gosto dos dois”. Meu pai parou para ouvir a intromissão da minha fala, mas voltou com o diálogo com meu ex-companheiro.

“Mainha, eu aprendi quando eu percebi que eu estava enlouquecendo. Eu ia reclamar de algo e, no final da conversa, eu me sentia culpada ou como se tivesse mentido. Então, percebi que não. E passei a aplicar a técnica que chamo de ‘fio da meada’. Se prenda ao que ele falou no começo, ao que foi dito quando iniciou a conversa. É isso que importa. Não perca isso, não perca o fio da meada. No meio vão surgir várias informações, vários argumentos, apenas para confundir e enlouquecer. Mas depois, quando chegar a tua vez de falar, retoma o objetivo inicial da conversa, do fio da meada, para tentar resolver. Se não conseguir, perceber que está perdendo energia, encerre.”

“Eu não sou obrigado a aceitar”. O tempo parou para mim naqueles segundos que ouvi essas palavras. Como uma avalanche às avessas, meu corpo implodiu de baixo para cima, senti meus olhos encherem de lágrimas, percebi que elas queriam evasão. Mas controlei a minha respiração o suficientemente para que o impacto daquelas palavras não me tomasse mais. Eu precisava encerrar aquilo. Não ia transformar aquele momento numa tortura, como historicamente acontecia com as conversas.

“Eu quero conhecer ela”. Minha mãe mostrou abertura, para minha surpresa, ela foi no caminho oposto do meu pai, que fixou um olhar de repreensão contra a minha mãe: “Eu não vou dizer que aceito. Eu não tenho falsidade”. Tanto minha mãe como eu ouvimos isso e não falamos nada. Ela parecia pensar. Algo pareceria reverberar em sua mente. Em poucas palavras aparentemente verdadeiras e profundamente mentirosas, meu pai transformou a minha mãe na antagonista de sempre.

“Eu não sou obrigado a aceitar”.

Quando chegou a minha vez de falar, eu disse que ele não era obrigado a aceitar. Que ele teria essa liberdade. Que eu não esperava que ele aceitasse imediatamente. Que eu aguardaria o tempo necessário para ele aceitar. Que eu e a pessoa que eu estava me relacionando, neste período, o receberíamos quando ele aceitasse. E que o que eu estava fazendo, ali, era informando os dois. Em poucas palavras aparentemente verdadeiras e profundamente mentirosas de meu pai, eu já estava descreditando o pedido da minha mãe.

“Eu não sou obrigado a aceitar”.

Não, ninguém é obrigado a aceitar, por qualquer motivo que seja. É a escolha de cada um. E eu faço as minhas escolhas a partir disso, também.

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