Antônimo de exclusivo é inclusivo

Antônimo de exclusivo é inclusivo

31 de julho de 2021.

Na estrada de barro do Acampamento Lula Livre, em Moreno (PE), uma senhora me pede para fazer algumas fotografias para registrar a sua visita, ao local, do projeto Roçado Solidário, coordenado pelo MST-PE e Mãos Solidárias. “Vou ver se consigo”, respondi, quando percebi que eu tinha que fazer as fotos com um smartphone tão banal quanto qualquer tecnologia, mas que veste a capa da exclusividade do “i”, e torna tudo mais difícil que a linguagem do “p” (para mim, ao menos).

Segundo o Houaiss, exclusivo é aquilo que exclui, elimina ou tem esse poder. Não compatível, excludente, eliminatório. Que pertence a alguém por privilégio.

Sempre que pego num desses iAlgumacoisa, lembro de quando trabalhei em (mais) uma agência de publicidade, em que (mais) um dos designers de lá era tão fissurado pela necessidade de exclusividade, que ele não apenas era uma verdadeira propaganda ambulante da Apple e de Steve Jobs e todos os seus produtos, pensamentos e discursos, como também parecia ser o marqueteiro ideal de qualquer linha avançada de qualquer série de uma marca qualquer produzida pela indústria.

“Essa bota, ela não encharca, pois é impermeável”.

Como ele era um habitante de Olinda e vinha trabalhar em Recife, deveria ser uma verdadeira trilha o seu trajeto, com uma parada de ônibus a poucos metros de sua casa. Para chegar no trabalho com os pés limpos, a bota torna-se tão essencial quando o carro com tração 4 x 4 de nosso chefe, mesmo que fosse para passar no mínimo seis horas de relógio dentro de uma sala com ar-condicionado, sentado na frente do computador.

Eu, como moradora da periferia recifense de rua de barro não asfaltada e ainda adepta da sandália rasteira, só me restava conviver com as consequências das minhas escolhas: os pés sujos e o frio insuportável – pois o calor excessivo que meu colega jobeano sentia, dava-lhe (ele se dava) o privilégio sobre a temperatura do ar-condicionado, que sempre ficava no mínimo e ainda não era o suficiente para ele.

Esse foi o período em que mais ouvi falar da Apple e do filme sobre Steve Jobs. Foi também quando eu descobri táticas de contrabando de eletrônicos – pasmem, da Apple – e roupas dos EUA para o Brasil, via aeroporto, exercidas por aqueles integrantes da classe média. Além do interesse obsessivo em dizer as vezes em que foram à Disney.

A partir da minha convivência com um fanático, além de toda a propaganda que havia, e ainda há, em torno da marca, cheguei a acreditar que eu precisasse de um desktop da Apple – pois eu já me aventurava como web e designer gráfico dos Outros Críticos –, mas minha bolsa de estágio como redatora publicitária não era nem 3% do que eu teria de pagar para me sentir mais especial, além do esforço que a compra me acarretaria, em parecer alguém que eu não acreditava ser, o que já é um excesso para mim.

O delírio durou apenas algumas buscas na internet para saber quem era Steve Jobs e entender o discurso dele, além de alguns momentos de convivência com aquelas falas egoicas do meu colega, até eu começar a me questionar, internamente, o impacto que estava tendo sobre minha forma de ver a vida.

O antônimo de exclusivo é inclusivo.

Haviam três crianças pequenas na margem do caminho do Assentamento Lula Livre. Não me lembro quem começou o diálogo, mas perguntei se elas queriam que eu tirasse uma foto. A resposta foi imediata, com largos sorrisos: sim!

A minha energia sempre flui naturalmente com as crianças.

Quando ajustei o smartphone para tirar a foto, a criança mais extrovertida já estava com a pose pronta para o registro. Ao lado, estava a segunda, que ainda se preparava, talvez pensando em como poderia ser fotografada. Já a terceira, atrás, não estava muito preocupada com a foto, mas mais atenta à paisagem ou ao grupo de pessoas que eu acompanhava e já se distanciava.

“Você vai pra onde?”, a mais extrovertida me perguntou. Eu não sabia dizer para onde estava indo exatamente, apenas indiquei o lado para qual seguia as pessoas com que eu estava. Então, ela me disse que mais tarde iria “para lá”. Então, me despedi das três, mas falei que voltaria.

Acelerei o passo. Mais adiante, além do smartphone, agora eu estava com uma sacola de roupa, tentando me equilibrar na estrada com um barro bastante escorregadio.

“Bom dia”, saudei dois moradores que me perguntaram se ia ter gravação. Expliquei que era um projeto do MST. Antes de seguir, perguntei sobre a gravação e me informaram que estiveram gravando pelo acampamento, parece que para um filme global.

“Se precisar de algo…”, “Está bem, obrigada”.

A manhã no Acampamento se dividiu em se alimentar, ouvir discursos, organizar grupos, realizar a preparação do solo e plantio de macaxeira, conhecer a dinâmica da terra, das plantas, do rio, dos moradores, do roçado. Aprender sobre cooperação na prática.

“O que pode acontecer, além de melar o pé de barro?”, perguntei a um conhecido, após a formação do grupo para fazer a manutenção na plantação. “Pode me machucar?”.

Quando cheguei no Armazém do Campo, em Recife, para pegar o ônibus que nos levaria para o Acampamento em Moreno, eu percebi que tinha deixado passar alguma informação importante. Notei que a maioria das pessoas, que também aguardavam, estavam de tênis ou bota, e quem calçava sandália, como eu, levava um tênis na sacola.

Já consigo conviver harmonicamente com a minha habitual desatenção.

“Aqui tem cobra e escorpião”, alertou uma conhecida, quando eu já estava prestes a entrar na plantação.

É assim que um desatento aprende.

Fui imediatamente atrás de uma bota, percorrendo um longo caminho de volta, agora com medo de ser picada por uma cobra ou escorpião.

Lembrava que tinha uma bota largada onde lanchamos. “Posso pegar essa bota emprestada?”, perguntei à moça que ajudava a preparar o almoço.

Eu estava sem meia. Alguns minutos na plantação de macaxeira e dentro da bota já estava muito quente. Coloquei lenços e até papelão para tentar diminuir o atrito do plástico na minha pele, que já estava em carne viva em algumas partes. Mas a dor me parecia menor que uma picada peçonhenta.

Na volta, pelo mesmo caminho em que encontrei as meninas quando chegamos, vi que elas estavam lá, no mesmo lugar, acompanhando o nosso retorno ao ônibus.

“Cadê aquela menina?”, perguntou a criança mais extrovertida, me procurando, com o olhar, em meio às pessoas.

Saí do grupo para falar com duas delas.

Expliquei que não estava mais com o celular em que fiz o registro, que não tinha como fazer mais fotos (me esqueci completamente do meu próprio celular). Até que um rapaz que passava, ao ouvir a minha fala, se propôs tirar novas fotos. Em seguida, todos seguiram o caminho em direção ao ônibus.

“Vai voltar amanhã?”, perguntou a mais extrovertida para mim, mas antes que eu respondesse, logo começaram a contar várias coisas do cotidiano delas. Eu me dividi entre tentar ouvir, responder e perceber que tinha perdido o grupo de vista.

As duas me abraçaram e voltaram a contar novos acontecimentos.

Na parte de baixo, no terraço de uma casa, vi uma senhora com a terceira criança. Cumprimentei-as.

Tentei me despedir, mas a menina mais extrovertida voltou a contar mais alguma coisa e agora precisava me mostrar algo.

“Deixa eu te mostrar…”, “Eu preciso ir, todos foram embora. Quando eu voltar, você me mostra”, “Mas tá aqui, ó”. E me puxou para perto de um carro branco que estava próximo da gente e tocou nele. Ela pulava de alegria.

“Você vai voltar amanhã?”, perguntou novamente.

“Não vou voltar amanhã. Mas quando eu voltar, falo com vocês novamente”. As duas me abraçaram de novo, mais apertado. Dei um grande sorriso de felicidade.

Certas demonstrações de carinho ficaram restritas com a pandemia. Às vezes, o acaso as subverte.

Demos inúmeros acenos de despedida com as mãos.

Apressei o passo para que o ônibus não partisse sem mim.

Ao longe, ouvi um homem comentar para o motorista que faltava uma menina (eu), que ficou para trás.

Acho que preciso comprar um par de botas.

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