ii. A lagartixa da hera-roxa (O gato e a lagartixa)

ii. A lagartixa da hera-roxa (O gato e a lagartixa)

Um dia desses, eu estava impedindo o gato da vizinha que rotineiramente visita o quintal da minha casa de caçar novas lagartixas. Ele não faz isso por necessidade de se alimentar, ou seja, não faz para garantir a sua demanda nutritiva. O gato é aparentemente cuidado e bem alimentado pela sua dona.

Mas por uma motivação instintiva, o felino bicolor é capaz de ficar horas, entre cochilos e estados de atenção, aguardando qualquer atrativo no quintal. O gato não economiza em paciência e tranquilidade para observar o cenário ou planejar um possível ataque. Embora aparente estar distraído, o movimento das suas orelhas demonstra que o felino é um especialista no monitoramento da paisagem sonora, traçando um mapa mental de cada som, mais ou menos perceptível ao ouvido humano, que insurja da rua ou do quintal. Mapa mental delineado pelo predador tanto para se proteger como para atacar.

O gato ora se camufla por entre os canteiros, ora busca um lugar mais ventilado nos dias mais quentes. As lagartixas têm uma dinâmica de se alimentarem dos pequenos animais, como formigas, e restos de comida, como verduras e frutas, que possam ter pelo quintal, quando não estão se abrigando debaixo das plantas ou dentro dos tijolos.

Nessa dinâmica, numa mescla de empatia com interferência – invasiva – humana, eu ensaio uma harmonia entre ambas as diversidades: garantir a sobrevivência das lagartixas sem descartar a permanência do gato no jardim. Embora já mais consciente, vez ou outra preciso me recordar que a afeição é uma projeção que fala mais de mim do que dos seres por quem estabeleço afeto.

O ego e a empatia são dois lados de uma mesma moeda que, sem limites ou equilíbrio, podem se transformar em armas de (auto)destruição.

Entre cochilos, o gato guarda a sua energia para acionar, a qualquer oportunidade, o seu lado predador. Diante da constante ameaça, todas as lagartixas sumiram do lugar. Vez ou outra, uma lagartixa adulta se arrisca em buscar alimento para garantir a sua sobrevivência. O que pode ser fatal, principalmente para as mais vulneráveis. Não é raro perceber, principalmente, as lagartixas menores saírem de seus abrigos.

Por vezes, impaciente, o gato averigua e cutuca as ramas da hera-roxa de um dos canteiros do jardim, provavelmente na tentativa de emboscar uma lagartixa pequena que, corriqueiramente, é importunada pelo felino.

O prazer do predador está em fazer a caça reagir a seus instintos.

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