iii. Xeque: o isolamento da presa (O gato e a lagartixa)

iii. Xeque: o isolamento da presa (O gato e a lagartixa)


O isolamento é umas das táticas mais benéficas ao predador emocional.

Não é raro ver nos programas sobre a vida selvagem uma presa perdida do grupo, captura fácil para uma fera da savana. Nessa preliminar de um ciclo que se repete como um ouroboro – a serpente que morde a própria cauda e simboliza o eterno retorno – a vítima perde o contato com pessoas que poderiam alertá-la sobre o perigo em que se encontra ou, até mesmo, para orientá-la ou protegê-la das emboscadas que ocorrem de forma sistemática e articulada pelo abusador, este que não economiza durante a manipulação, fazendo uso de difamações, mentiras e jogos mentais.

Por isso, não há honestidade no vínculo que o abusador propõe: lhe interessa o ancoramento da vítima ao universo dele, tornando-a dependente, o que é feito com a sutileza de uma criança que desafia a sua paciência e precisão para não mover nenhum palito no jogo de pega-varetas, exceto aquele o qual ele se incubiu capturar. A jogada tende a ser imperceptível ao olhar mais ingênuo, inocente ou empático, já que, no início, o narcisista veste a sua melhor máscara, na intenção de conquistar a confiança da sua presa.

Nesse falso acolhimento, somos vítimas das nossas próprias antecipações. Entramos em vertigem, espelho defronte ao espelho, geramos imagens em mise en abyme com as projeções do nosso predador narcísico. Nessa fase, desvelamos nossos pontos mais sensíveis, ao passo que o nosso algoz cartografa nossas potências para benefício próprio, mas principalmente nossas vulnerabilidades, com o intuito de ativá-las contra nossas inseguranças. Assim, metamorfoseamo-nos num lago, numa poça d’água ou num espelho abandonado, à revelia das nossas próprias dores que convergem com as do nosso próprio algoz. Contudo, só cabe a nós, vítima, a responsabilidade de vivenciá-las segundo a lei e critério impostos pelo próprio narciso.

O abusador é um competidor nato e expressa isso nos detalhes. Por outro lado, não suporta a derrota – muito menos quando perde para as suas vítimas -, ao passo que se utiliza desse mesmo sentimento para despertar, nelas, a empatia. Então, aguarda silenciosamente o momento ideal para, tal qual uma partida de tabuleiro, lançar seu “uno” ou “xeque”, na tentativa de desestabilizar a presa, agora com as suas dores e feridas já em carne viva.

A dependência simbiótica entre o abusador e a pessoa abusada pode ocorrer em muitas áreas em que se revele alguma abertura, ou melhor, vulnerabilidade, seja na psicológica, seja na financeira, seja na patrimonial, por exemplo. Portanto, o predador se utiliza de inúmeras estratégias, ao passo que emprega os mais variados argumentos – dos mais absurdos – ou cria e retoma as mais inesperadas situações e, até mesmo, triangula com as pessoas mais improváveis, com o intuito de enredar a presa no seu mundo. Para tanto, artista das ilusões, ele troca de máscara e narrativa sob medida ao seu desafio.

Com isso, coadjuvantes dessa encenação, tanto a vítima quanto personagens secundários (como conhecidos, familiares e amigos, por exemplo) são envolvidos em uma peça grotesca em que, por vezes, sequer tomam conhecimento do roteiro: encenam como mamulengos do ego narcisista. Desse modo, narciso busca a sedução, garantindo que a sua imagem se mantenha espelhada pela sua presa, seu reflexo repetidor, que costuma reverenciá-lo como único protagonista possível: suprimento do ego do narcísico.

Ao espelhar as suas dores na vítima – agora, ao menos, mentalmente isolada – o predador impossibilita ou dificulta qualquer contato, físico ou psicológico, que possa contribuir para a conscientização ou percepção da narrativa dirigida pelo ego adoecido do perverso. Por isso, a simbiose abusiva ocorre através de um jogo de atuações confusas e inexplicáveis, com a finalidade de restringir a convivência da presa com aqueles que poderiam transmiti-la confiança ou fornecê-la assistência. Assim, a cada “xeque”, o objetivo do competidor é desestabilizar e isolar o seu alvo.

Logo, a vítima se percebe desmembrada de seu entorno, abrigando-se agora na base mais presente e persistente: a do predador emocional. Este que não somente fará a sua presa perder seus vínculos externos e de apoio; mas também a desidratará, tirando-lhe a autonomia e, consequentemente, a sua força e autoconfiança. Por fim, a sua vida, seja ela literal ou simbolicamente.

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