vi. Ratinho de laboratório (O gato e a lagartixa)

vi. Ratinho de laboratório (O gato e a lagartixa)

Diante da sensação de abandono causada pelo isolamento articulado pelo abusador, só resta à presa, isto é, à pessoa abusada, se abrigar e buscar acolhida no lugar oferecido pelo próprio predador emocional, que não planeja devorá-la imediatamente, pois o gozo está no estado reativo e intermitente da vítima. Já que a intenção do predador é estimular a cobaia tal qual um ratinho de laboratório.

É o abusador quem manipula a resposta emocional da vítima, espelhando-a, visto que ele não é capaz de vivenciar, reconhecer, processar ou superar as suas próprias dores de infância. Dores que tendem a se encaixar com as da própria presa. Assim, ocorre uma simbiose entre dois corpos distintos – o primeiro é o da dominação ou o da dor dominadora; o segundo, o corpo apossado, o da dor dominada. Ambos os corpos se projetam, ao passo que formam uma ciclo tóxico e abusivo; confundem-se, transformando-se em apenas um: a vítima é agora uma serva, uma fiel, sombra de seu deus, seu rei. É espelho de narciso.

Contudo, tal cenário é sutil e conscientemente desenhado pelo próprio perverso manipulador, por meio de eventos que ele criará com a finalidade de que a vítima, naturalmente empática, sinta o sofrimento, ou melhor, as dores que o abusador não é capaz de ressignificar. Por isso, o predador emocional é quem determina como e quando a vítima está autorizada – ou não – a vivenciar uma dada emoção positiva ou negativa. Momento em que as vulnerabilidades e inseguranças da presa estão ofuscadas da própria vítima, mas já latentes aos olhos do abusador.

Os polos “autoconfiança” e “insegurança”, por exemplo, serão amplificados ou limitados conforme a intenção do manipulador. Com isso, o reforço positivo, como quem alimenta uma cobaia faminta, se fará através de comentários de admiração – para quem cresce em um ambiente de (auto)cobranças e (auto)críticas, por exemplo, o alimento da alma é o reconhecimento e o elogio.

Incapazes de nos reconhecermos ou de acessar nossas próprias fortalezas, concedemos ao outro o poder de nos reconhecer, nos perceber, nos conscientizar sobre nós mesmas. O nosso ego passa a ser o ego do abusador: eu sou um outro, ou melhor, eu passo a ser o eu do outro.

Por sua vez, o reforço negativo se fará pela via da desnutrição ou do envenenamento: o respeito e a consideração são substituídos pelo silenciamento ou apagamento do ego da vítima; seja por gestos ou movimentos imperceptíveis seja por palavras de desaprovação. Desautorizadas pelo nosso deus, pelo nosso rei, recolhemos nossas chamas, abandonamos nossas potências.

A fome por reconhecimento é uma falta, um vazio o qual a vítima dispõe ao abusador o poder de preenchê-lo; é uma dor, uma ferida exposta e ainda não curada.

Por outro lado, a presa, antagonista, jamais será nutrida sem que o perverso a mantenha afastada numa distância segura: muitos degraus abaixo do pódio construído pelo próprio predador, um competidor em tempo integral. À vítima que ainda ouse alcançar o mesmo patamar do macho narcisista, representando, assim, uma ameaça, imediatamente terá o seu degrau danificado ou removido pelo perverso, retardando qualquer ascensão.

O estado positivo da presa é manipulado na medida necessária para que a fonte do abusador não cesse, mas também não o afogue: se limite, apenas, a projetar a face de narciso. A presa, moldada para servir, torna-se apenas um recurso, um objeto, algo a ser explorado, colonizado. Uma ferramenta, uma função, um produto que será descartado ao primeiro indício de inutilidade: quando Eco não mais refletir Narciso.

Portanto, é pela manutenção do estado negativo da vítima que o abusador atuará com mais apuro, fazendo uso estratégico da culpabilização, jogando com as impercepções da vítima sobre si mesma. Nessa etapa do ciclo abusivo, um conjunto de eventos inesperados e emoções desequilibradas são articulados pelo predador emocional na relação com a sua caça. Ao sentir-se exposto ou perdendo espaço, essa fase surge diante da urgência do abusador em reintegrar a posse sobre a presa.

As inseguranças da vítima são apólices do terreno que o predador emocional não se abdicará, e para reestabelecer o domínio, muito menos hesitará em agir com desonestidade, covardia e dissimulação.

Nesse cenário, é improvável que a vítima atinja a estabilidade emocional ou autoconfiança necessárias para a sua verdadeira evolução, perdendo-se de si, inacessível às suas potências, vivendo, dessa maneira, em estado de condensação energética. Consciente desse fluxo, nossos machos abusadores apenas equalizam a frequência e intensidade com quem vibramos o campo magnético de nosso ser/estar na terra. Interrompe o nosso cordão umbilical com a nossa mãe terra, pachamama.

Enquanto temos as nossas feridas em carne viva, solicitando a posologia ao nosso próprio algoz; este manterá as suas dores protegidas, abertas apenas para tocar a nossa face empática. Assim, a máscara afetiva do perverso, usada na primeira fase do ciclo abusivo, é pouco recíproca e vazia de altruísmo ou sinceridade.

Uma máscara feita sob medida para cada vítima, para cada outro espelhado.

Skip to content