vii. Autômato (O gato e a lagartixa)

vii. Autômato (O gato e a lagartixa)


O humor narcísico é instável, cíclico, sem-fim.

Um ouroboro que vai do abusador à vítima, da vítima ao abusador. Uma ciranda macabra. Uma montanha-russa de emoções. Toda ação envolve uma reação, toda reação envolve uma ação. Vive-se em estado de sobrevivência.

A todo instante, nosso cérebro nos alerta que algo de ruim pode acontecer e, em nosso pico de vigília, uma bomba energética pode nos fantasiar de excessos: excesso de alegria, excesso de criação, excesso de concretização, excesso de projeção, excesso de raiva, excesso de reação. A ansiedade torna-se o sentimento base da relação tóxica-abusiva.

A falta atrai o acúmulo. O vazio anseia ser ocupado, completado. O nada aspira o tudo, que se concentra num só.

Mas nem nosso corpo e muito menos o ego do narcisista suportam viver sob excesso ou adrenalina constantes. É quando, ao chegar no topo, ou melhor, no pico da nossa autoconfiança (valorização do ego) e, consequentemente, na ativação da insegurança do narcisista (desvalorização do ego), estamos suscetíveis a reações desarmônicas que iniciam com uma frustração aparentemente insignificante, até o perverso acessar ou cavar, dentro de nós, as feridas mais profundas ou dolorosas.

Assim, quanto mais alto subirmos na fase maníaca, mais adentro podemos mergulhar, vertiginosamente, de um poço claustrofóbico na fase depressiva, na qual lágrimas e crises existenciais podem ser expressas de forma tão excessiva e desequilibrada quanto durante o momento de êxtase. Da autoconfiança à insegurança: o nosso humor se torna difásico.

Nesse poço caímos sem paraquedas, enquanto o abusador nos observa, ao longe, aguardando o momento propício para dissimular a sua compaixão e nos resgatar, na intenção de renovar a imagem de único salvador, herói de nossos momentos de crise, das nossas vulnerabilidades e fraquezas ficcionais implantadas nas lacunas de nosso ego pelo próprio narcisista: aquele que nos protege até, e inclusive, de nós mesmas; nos poupa da não existência, de não sermos nada sem a presença dele – o tudo – em nosso inconsciente.

Um autômato, porém mulher, porém louca, desequilibrada, emotiva ou sensível demais. Por isso, cabe ao nosso herói nos salvar da nossa incompetência de ser e estar no mundo. Nos socorrer da nossa insanidade pueril de querer existir para além do movimento mecanizado do manipulador. Assim, nos resumem a um feminino inventado por eles mesmo – os homens, os machos, o patriarcado – para satisfazer seus desejos mais subterrâneos.

As constantes cargas emocionais bifásicas nos consomem tal qual a parafina assolada pelo excesso de calor. Vivemos em desequilíbrio. Serpenteamos como o fogo que se curva – e se turva – com a delicadeza do vento que afaga a chama. Ou a urgência e a agitação do sopro que desfaz a luz.

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