Dona Joaquina deve ter muita história para contá-lo

A primeira vez que presenciei Miró performando, a minha recepção inicial foi de estranheza. Eu não me reconheci nela. Embora eu fosse um corpo popular da periferia, também. Eu não me reconheci na performance de Miró. Embora a revolta, o humor e a comicidade me fossem tão necessários e presentes na minha vida quanto as três refeições diárias, para meu sustento. Eu não me reconheci na performance de Miró, inicialmente.

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Eu não me reconheci na poesia de Miró?

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Eu já tinha ouvido falar de Miró, nesse período, mas eu ainda estava mergulhada numa visão de poesia que, embora eu não creditasse a visão canônica, também não tinha contato com a performance, muito menos a popular, muito menos a periférica, muito menos de uma forma significativa, na graduação de Letras.

Ou seja, eu ainda não tinha consciência, sequer um autorreconhecimento, sobre um fazer poético pautado em minha realidade, no meu corpo popular. Porém, ali, me permitindo entrar em contato com a performance de Miró, eu já começava a me sensibilizar, me abrir para um corpo do afeto possível.

Acho que foi nessa primeira vez, também, que vi Miró se agarrar a uma pilastra do Edifício Pernambuco, provavelmente no Sexto Andar, enquanto ele recitava, com a testa franzida, e nos mirava com os olhos vermelhos, com expressão desesperada e intensa, fitando-nos desafiador e curioso.

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Perto do Largo de Santa Cruz (Recife, Pernambuco), numa tardezinha, eu e mais duas companhias topamos com Miró, que nos chamou para conhecer onde morava, perto da panificadora. Ele deve ter feito algum comentário sobre o nome da rua que entramos. Não ouvi bem, mas sorri em resposta, mesmo assim.

Lá, ficamos conversando no quarto dele, em meio aos móveis, objetos pessoais e algumas publicações. Durante a conversa, Miró falou sobre a sua saúde, nos explicou como funcionava a dinâmica da pensão, o seu sustento, falou sobre a vida, a mãe…

De repente, no meio da fala de Miró sobre Dona Joaquina, um livro caiu de uma mesinha, onde tinha um amontoado de coisas, que estava ao lado da cama.

– É a minha mãe. Ela se comunica comigo, explicou Miró.

Nesse momento, mirei seus olhos; estavam vermelhos, profundos.

Miró parecia vasculhar algo dentro de si, talvez acessando alguma imagem do passado. Comentou outras formas de diálogo que ainda mantinha com a mãe e resgatou recordações que teve com ela ainda em vida.

Um tempo depois, nos despedimos e já era noite.

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O comentário de Miró sobre a mãe foi inesperado, me deixou tensa, mas logo me propus a captar, olhando para os demais objetos do quarto, outras formas de comunicação que ela poderia estar tentando fazer com Miró, enquanto ele falava nostálgico, por não ter a presença carnal de Dona Joaquina.

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Morando no Rosarinho, finalmente sentei na rede de descanso para ler a edição cartonera de aDeus (Mariposa Cartonera, 2015). Em seguida, resolvi ler, também, alguns poemas da coletânea Miró até agora (Cepe, 2016). Recordo que cada poema me fazia refletir sobre questões simples da vida ora com um sorriso, ora com uma mirada para cima, para o nada, envolta por uma reflexão.

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Um dia, caminhando próximo ao Largo de Santa Cruz, novamente, talvez pela Avenida Manoel Borba ou quem sabe na rua do antigo Texas Bar, vi um poema escrito com lápis marcador hidrocor sobre papel ofício A4, colado em um poste de energia. Lembro que o texto falava algo sobre luz ou Celpe. A frase tinha uma assinatura alegre, expansiva, performática, inconfundível: Miró.

E foi, assim, transitando pelas ruas do Recife, enquanto me locomovia para resolver obrigações ordinárias da vida cotidiana, que Miró me fez sorrir e refletir, mais uma vez, sobre a vida, sem perder o humor.

Finalmente, compreendi a sensibilidade na comunicação poética de Miró. Ele bem que poderia estar ali, na hora, recitando aquele texto, ao passo que se agarraria ao poste e olharia para os transeuntes curiosos do bairro da Boa Vista. Naqueles poucos segundos, senti Miró dialogar comigo.

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“Não é Miró, o pintor. É Miró da Muribeca, um bairro daqui”. Uma das primeiras referências que mostrei para uma portenha, a fim de ilustrar a cultura poética recifense, foi um vídeo de Miró recitando. “Você tem de vê-lo pessoalmente, performando, para entender… Fala, muito, da cultura daqui.”

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Desde o governo Temer, comecei a passar de bicicleta da Praça do Diário, pela Ponte de Ferro, para a o Largo de Santa Cruz e notei o número de pessoas em situação de rua ou abandono aumentar gradativamente.

Hoje, encontrei um poema de Miró publicado em abril de 2018 no seu Facebook:

“[…]
Já parou um pouco
pra sair andando?
Olhando esse mundo fedido
a urina e inju$tiça?
[…]

FALANDO SÉRIO

Deus deve tá rindo da gente.”

Revoltado, entre interrogações, caixa alta e ponto final, Miró não perde o humor.

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Dona Joaquina deve ter muita história para contá-lo

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Ref.:
Miró. O ano não vai ser novo. https://www.facebook.com/muribecaelogoali/photos/mir%C3%B3-da-muribecaque-isso-seja-uma-reflex%C3%A3o-para-esse-ano-que-se-inicia/1371643646187838/
Miró. O PENÚLTIMO OLHAR SOBRE AS COISAS.
https://www.mariposacartonera.com.br/site/produto/o-penultimo-olhar-sobre-as-coisas/
Miró. Perto do Largo de Santa Cruz. https://m.facebook.com/mirodamuribeca/posts/1098202503653399
Miró. TVU Recife. https://www.youtube.com/watch?v=B3NveRADXaU

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