Eu sou duas vezes ele

Recife, 17 de agosto de 2022.

Enquanto lavava os pratos e em meio ao envio de vários áudios nem sempre correspondidos, comecei a pensar sobre o entrave que se tornou os vínculos sociais da atualidade.

Se relacionar parece que se tornou um problema. Todos parecem reclamar de dinâmicas as quais esses próprios sujeitos contribuem e participam.

Todos parecem ser perfeitos e imperfeitos, ao mesmo tempo.

Todos parecem reinvidicar mais ação e movimento sem abandonar seu território de projeções ou de delírios do ego.

Deve ser por isso que, na minha cabeça, eu sempre faço tudo melhor. Quando penso, tudo sai conforme o planejado. Nas minhas expectativas, quase nunca ou, me arriscaria dizer, nunca erro.

Projetar é um lugar muito confortável de estar.

Há um meme sobre expectativa e realidade: se a primeira demonstra certa previsibilidade, qualidade ou consciência na execução, a segunda é sempre meio bizarra, engraçada, incoerente ou inesperada.

Quem é que gosta de vê a própria imagem, assim, como no meme, saltando da expectativa para a realidade como quem tropeça e bola escada abaixo?

Deve ser por isso que não faltam conteúdos sobre as diferentes formas e teorias de vínculos sociais.

Quem está na grande rede que, de alguma forma, não anseia, mesmo que lá no íntimo, no irrevelado, no que está ocultado, acarinhar o próprio ego?

Por que falar do próprio ego? Só porque é isso que as grandes mídias sociais dizem que devemos fazer?

Por que não acarinhar o próprio ego? Só porque as grandes mídias sociais dizem que devemos fazê-lo?

Uns nasceram com esse dom. Outros aprendem aos poucos. Há os que abominam essa prática não só de enaltecimento do eu, mas, até, de qualquer eu. Talvez, também, devido a um ego retraído por situações traumáticas, de embates com outros egos predatórios, em seu histórico existencial.

Desde a faculdade, sendo objeto-alvo, eu nunca fui capaz de colocar um ponto e vírgula no momento certo.

Também nunca fui capaz de realizar os networks certos, os acordos certos, os empregos certos, o salário certo, a visibilidade certa, o reconhecimento certo, a escrita certa, a opinião certa.

Nem nunca serei capaz enquanto o certo for ser objeto-alvo de ego-fonte.

E foi assim, sem o glamour certo de quem teoriza, abandonando os pratos na pia e retardando o almoço, sendo a dona de uma casa incerta, com uma renda incerta, que escrevi mais um parágrafo incerto para uma pesquisa de tese incerta sobre um tema com valor acadêmico ainda mais incerto.

Pois a incerteza apenas é capaz de sair de uma mente que só pode estar errada, disse-me uma vez a norma-padrão.

Eis, a seguir, o fragmento que escrevi – para minha pesquisa de tese – sem ponto e vírgula para que, ao menos isso, numa possível correção, saia tão certo quanto o texto do ego-fonte.
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Eu sou duas vezes ele
(Nanda Maia)
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Há uma postura nos vínculos sociais e suas ramificações (relação amorosa, familiar, profissional etc.), na qual o sujeito se confunde com o objeto, ou melhor: o sujeito visa a dominação do objeto-alvo. Para tanto, o primeiro movimenta-se na premedição de espelhar o outro a ser possuído e, assim, reconfigurá-lo para os moldes do eu-possuidor. Na acepção do sujeito-dominador, o objeto-alvo resume-se a uma aberração, uma falha (Com quantos pontos se desfaz um rosto?, de Flávia Bomfim), um borrão que mancha a imagem social, mas, especialmente, a imagem do próprio ego. Portanto, o corpo objetificado peca pela sua qualidade de diferença, ao ser posto na relação binária – que também pode ser triangular, quando na presença de objetos-alvo nivelados como de menor ou maior valor (hierarquização, verticalização), sendo o sujeito a fonte ou ponto de partida – da comparação. Nessa forma de vínculo, o meio tem seus limites rasurados, assim como os do próprio objeto, para que ambos se sacrifiquem e, assim, assegurem a manutenção da imagem centralizadora, a do ego-fonte, superior e exclusiva ou excludente. Logo, essa forma de vínculo se vale da eliminação, da retração, da restrição ou da subtração de seus objetos-alvo.
A fonte é o eu. A influência é o outro. O original é a pureza, a matriz, a origem, a gênese, o bem-aventurado, o que está no topo da pirâmide, o exclusivo, o diferenciado, a versão premium, a personalização. A influência é a cópia, de menor valor ou qualidade, a massa, o popular, a base da pirâmide, o básico, a escassez. Je est un autre, já prenunciava Arthur Rimbaud sobre a vinda da era que se volta para o sagrado, logo, o intocável ego. Eu é um outro. Um eu e um outro que cortam as ligações entre si, ou seja, a interrelação entre sujeito e objeto: não há mais receptor ou interlocutor e seus elos, pois o sujeito é a própria mensagem, o próprio sentido, o significado que nasce e vive para se alimentar, teleguiando seus objetos-alvo em benefício de seu propósito narcisista. Nem o outro, muito menos o meio que os liga são capazes de ser. O ego retroalimenta a imagem que tem sobre o próprio eu.
Sem o meio e sem o outro, já que ambos confundem-se com o próprio ego, a imagem resume-se à representação de algo ou alguém que volta-se para si mesmo e corta qualquer forma de vínculo, isto é, de relação que signifique a divergência, a discordância com a própria imagem construída pelo seu autor onipresente, onipotente, possessor e extravista da diversidade, em prol da manutenção de uma monocultura do pensamento, da existência, das interações sociais: de afetivos, os movimentos tendem à reflexão vertiginosa de si, do eu, do ego-fonte.

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