Olhe para a rua, mas não esqueça a janela (Cobra caninana)

Olhe para a rua, mas não esqueça a janela (Cobra caninana)

Janela do ônibus.
Janela do ônibus para o Condomínio João Paulo II, conhecido como Inocop, em Recife, Pernambuco, Brasil. Foto: Nanda Maia

Nos relacionamentos parentais, de amizade e amoroso eu aprendi que devo olhar a rua, sem esquecer de prestar atenção à janela.

Mas, também, que focar demasiadamente a janela me tira a oportunidade de admirar a paisagem.

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Eu chamo as pessoas mascaradas, aquelas de intenção maldosa, de cobrinhas caninanas.

Ainda não sei se é “Quem te matou, cainana?” ou “Quem te mandou, cainana?”. Já ouvi as duas versões e prefiro a última.

* * *

As cobras cainanas, também como são conhecidas nos pontos de umbanda e candomblé, chegam silenciosamente, passando todos os limites, pouco a pouco, como a água da barragem esperando o momento de estourar e destruir a biodiversidade da Pachamama. Essa tem sido uma alegoria recorrente na minha cabeça.

Cobras caninanas pensam e agem para a estrutura colonial do patriarcado capitalista e racista.

Exploram, extraem, extraviam e anseiam se apossar de todo e qualquer corpo, de toda e qualquer matéria.

Ambicionam a totalidade, a centralidade, a verticalidade, a linearidade.

Conjugam a terminação “-ade” como quem acaricia o gato, enquanto maquina uma maldade.

Reduzem a diversidade à expressão monocultural, monolinguística, mono-etc. de si para si.

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Cobras caninanas nos condicionam ao medo de viver e de ser feliz.

O amor é uma proibição, quando policiar os limites da janela passa a representar a nossa sobrevivência.

* * *

O problema não é a paisagem, nem a rua.

O problema não é a janela.

Muito menos os exercícios de limitações próprios de vínculos mais conscientes da existência do outro, do diferente.

O problema é viver com medo, no desamor, em que a proteção não é demonstração de afeto, mas de sobrevivência.

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Seu Tranca Ruas me cubra com sua capa

Quem com sua capa escapa

Quem com sua capa escapa

A sua capa, ela é cheia de verdade

Ela cobre todo mundo, só não cobre a falsidade!

Ponto Exu Cainana (Kizomba, 2020)

Referências

QUEM TE MANDOU, CAINANA? Kizomba, Facebook, 2 mai. 2020.
https://www.facebook.com/kizombaTV/posts/2726878264088132/

EXU CAINANA. Grupo Boaiadeiro Rei, Facebook, 20 ago. 2014.
https://www.facebook.com/grupoboiadeirorei/posts/494732717297032/

UFRGS. Caninana (Spilotes pullatus). Fauna Digital, Rio Grande do Sul.
https://www.ufrgs.br/faunadigitalrs/caninana-spilotes-pullatus/

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