Arte é vida, pois a minha vida depende da arte | Prosa | Videoarte


Editei agora esse clipe para compartilhar uma das versões de um poema recitado por JMB. Eu captei a voz de JMB na casa dele, anos atrás. Na minha casa, na época, editei o longo áudio com vários poemas recitados, enquanto dirigia o famigerado JMB, sempre muito disposto em seguir as orientações para uma melhor captação. O arranjo com guitarras e colagens sonoras são minhas também. Os efeitos sonoros, como reverbes. Assim como esta edição de vídeo. Escrevo tudo isso sem a real convicção. Parte da minha memória foi destruída, levando, consigo, minhas convicções quanto a essa fase. Embora eu possa reconstituir a imagem e etapas de todo o processo criativo.

A desconexão com as emoções. A compartimentação de pensamentos. A racionalização excessiva. Esquecimentos e desatenções foram as consequências e, ao mesmo tempo, os mecanismos de sobrevivência que meu corpo gerou em mim, por ter vivido muitos anos sob a violência colonial e patriarcal.

Se não fosse isso: ou eu teria literalmente surtado, como em muitos momentos cheguei nesse limiar, diante do intenso e constantes contato com manipulações e distorções patriarcais. Ou eu teria finalmente me suicidado.

Mas, por alguma razão, alguns neurônios meus é que se sacrificaram por uma perseverança minha em me manter viva.

E se meu lado criativo foi o que nutriu os violentadores vazios de criatividades, mas cheios de maldade. Também é o que me protegeu de consequências ainda mais graves.

Arte é vida, pois a minha vida depende da arte.

* * *

Há um ano, uma psicóloga me perguntou algo do tipo:

– Como você conseguiu fazer tanta coisa no meio de tudo que aconteceu?

“Entre lágrimas. Lendo, por exemplo, com as lágrimas descendo no meu rosto.”

Então, a psicóloga deixou escapar um “meu Deus” e um olhar de espanto.

Uma outra terapeuta, em período anterior, se contorceu na cadeira, parecia sufocada, ao final de inúmeros relatos meus, ainda nas primeiras sessões.

Coisas gravíssimas podem gerar quase nenhum impacto sobre mim. A tranquilidade com que eu conto, confunde as pessoas. Nessa hora, posso virar alvo:

– É louca? É insensível demais! Escrota!!!

Então, os machos que verdadeiramente merecem tais adjetivos. Aqueles que passaram anos me violentando, são amparados como vítimas, inocentes, imaturos, coitados, não foi tudo isso.

* * *

Muito nova, descobri que não podia contar, pras pessoas, as violências que sofria (sem nem as perceber como tais, ainda), caso eu quisesse manter alguma companhia ou amizade.

O isolamento era eminente.

E ainda é.

É o que acontece quando não seguimos as regras da mediocridade social.

O Instagram esconde publicações como esta, porque a nossa sociedade confunde a busca pela felicidade tal qual se confunde com o espectro vazio de narciso.

O apagamento e anulação do que incomoda é tão presente nas mídias sociais quanto o é para os sócio/psicopatas.

* * *

A desconexão com as emoções. A compartimentação de pensamentos. A racionalização excessiva. Esquecimentos e desatenções foram as consequências e, ao mesmo tempo, os mecanismos de sobrevivência que meu corpo gerou em mim, por ter vivido muitos anos sob a violência colonial e patriarcal.

Se não fosse isso: ou eu teria literalmente surtado, como em muitos momentos cheguei nesse limiar, diante do intenso e constantes contato com manipulações e distorções patriarcais. Ou eu teria finalmente me suicidado.

Mas, por alguma razão, alguns neurônios meus é que se sacrificaram por uma perseverança minha em me manter viva.

E se meu lado criativo foi o que nutriu os violentadores vazios de criatividades, mas cheios de maldade. Também é o que me protegeu de consequências ainda mais graves.

Arte é vida, pois a minha vida depende da arte.

Skip to content