Explicação sobre alteração em verso de Seu grito, de Aurinha do Coco | Nanda Maia

Explicação sobre a letra “Seu grito”, de Aurinha do Coco, a respeito da alteração do verso “Ela foi morta/No meio da madrugada/Com um tiro de espingarda/Pela mão do seu amor”. De andança pelos cocos por aí, não há quem reescreva o último verso: “pelo mão do agressor” (a que canto) ou “pela mão do abusador”.

O mais irônico é que vejo mais homens cantar com intensa euforia, com o intuito de marcar a alteração do verso. Como quem diz: esse homem retratado na música é um agressor! Um violentador!

É cômico, para não dizer trágico, que isso revela o principal índício de violência de um abusador: parecer algo que não é.

A violência psicológica se prova pelos indícios, não exclusivamente por materialidades documentais, como quer a justiça patriarcal.

O abusador necessita passar uma imagem que não aplica na prática. Usa várias máscaras para esconder a verdadeira face: a dita apropriação. As marcas psicológicas (gatilhos) nas vítimas e os diferentes discursos do violentador são os melhores indícios, muito mais impactantes que provas documentais.

Os indícios de violência na vítima e ambiente são a prova do pacto masculino, que consiste numa violência silenciosa. Manipulam, distorcem, menosprezam e criam obstáculos na vida de mulheres e corpos dissidentes.

Cansei de ver, e poderia citar exemplos com nome e RG, se não me rendesse processo e perseguição intermináveis, de homens violentadores, abusadores, nos cocos da vida, que cantam esse verso com a altura o suficiente para sobrepor a sua voz de macho impositor sobre o canto das mulheres e corpos dissidentes presentes.

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Agradeço o convite de Neuza para eu mais Juliana contribuirmos na sua apresentação do trabalho da professora Leoniza, disciplina de PEPE (FENSG), no qual Neuza tentou mostrar para os colegas de turma como foi a sua experiência como convidada no Curso de Extensão sobre a questão agrária na atualidade, ministrado por João Pedro Stédile, no mês passado, o qual também fui convidada, participando da mística. O curso do MST aconteceu no Assentamento Normandia, em Caruaru, Pernambuco.

No intervalo do curso, as mulheres presentes passaram a cantar espontaneamente “Seu grito” de Aurinha, ao passo que eu também cantava e as acompanhava no pandeiro.

A mística do último dia de curso foi sobre as mulheres de Tejucupapo, de Goiana, que lutaram com pimenta e água quente, derrotando soldados holandeses em Pernambuco, em 1646.

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Agradeço também a acolhida da turma de PEP, na FENSG. Das interações com Matheus, que veio sambar na roda de coco e falou da importância de trazer a cultura popular, a cultura que o representava, para o espaço acadêmico.

Agradeço à aluna (que agora não me recordo o nome) que também exerceu o seu protagonismo e se desafiou a pegar o ganzá e a tocar junto comigo, Neuza e Juliana, ambas no agbê, de improviso mesmo, como se faz na rua, nas rodas de coco.

Agradeço a Juliana por compartilhar comigo da música, nesse momento de troca.

Errata: Faltou, na minha fala, incluir o marcador racial: homem branco.

A revolução será feminista, e já está acontecendo!

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