O meu verso é minha arma, compa* minha / O berimbau é meu gatilho

A primeira vez que ouvi “Acompanhado é bem melhor”, de Mestre Pernalonga e Rafael de Lemba, foi no Spotify, a única referência que ainda tenho sobre a composição. “Quem quiser andar ligeiro / Ô, meu bem / Nessa vida ande só / Mas se tu quer chegar longe, colega véi / Acompanhado é bem melhor”. Versos que logo me conquistaram assim que os ouvi.

Até prestar mais atenção na letra e começarem as discordâncias sociais e históricas do meu ponto de vista de mulher cis interracial: “Todo filho tem um pai / Pra ser bom pai / tem que ser filho”. “Todo filho tem um pai”? “Bom pai”? Foi a pergunta imediata diante desses versos.

Lembrei da capacidade discursiva, narrativa e psicológica que os homens-cis-heteronormativos têm de criarem enredos fictícios dados como realidade.

Em seguida, recordei da vez em que fui ao cartório para tirar a segunda via da minha certidão de nascimento e vi um pôster na parede tratando sobre o direito de filhos/filhas/filhes de serem registrados pela figura paterna; ou melhor, dever ou obrigação (observem, OBRIGAÇÃO) que os pais, os homens, os machos, têm de registrarem filhos/filhas/filhes.

Foi preciso CRIAR UMA LEI para isso: “LEI Nº 8.560, DE 29 DE DEZEMBRO DE 1992. Regula a investigação de paternidade dos filhos havidos fora do casamento e dá outras providências”. É o que diz o site do Planalto brasileiro. Uma lei que INVESTIGA paternidade. Para toda investigação, há, pelo menos, um abandono, fuga ou ocultação, não acha? Quantos meninos ou homens você já não viu enrolar para não terem que lavar os pratos, por exemplo? Imagina, eles fazem isso com “suas crias”.

É preciso todo um aparato de comunicação, educativo e afirmativo, ou seja, um cartaz e uma lei que OBRIGUE os pais a exercerem a paternidade. Isso no âmbito das demandas financeiras de sustento básico, irrisório, por assim dizer. Porque, agora, me parece que a nova etapa está sendo: você deve dar afeto ao ser que gera, só a OBRIGAÇÃO financeira não basta (isso, quando dão), pois é o mínimo.

Chegou o momento em que o sistema patriarcal resolveu obrigar ou ensinar seus pares a amarem?


Então, lembrei das inúmeras vezes em que o meu pai biológico se orgulhava de “me sustentar”; de “não ter me abandonado”. E dos vários outros exemplos de homens que já vi aplicarem a mesma narrativa: “Eu não abandonei”; “Eu sustento”, “Eu pago pensão alimentícia” etc. Mas existe o sistema patriarcal que abandona pela fuga e outro que abandona pela presença ou prazer de torturar seus objetos in loco.

Se um homem diz que lava os pratos, faz todos os afazeres domésticos, sustenta a família, não abandonou os filhos, ou qualquer um desses exemplos discursivos que TODO MUNDO conhece, é certo que ele está construindo, conscientemente, uma verdade, visando a manipulação, tendo como aparato o poder patriarcal: ou a já citada capacidade discursiva, narrativa e psicológica que os homens-cis-heteronormativos têm de criarem enredos fictícios dados como realidade.


Eu gostava de ouvir “Acompanhado é bem melhor”, até começar a passar mal com toda a percepção histórica e social que adquiri quanto à capacidade discursiva, narrativa e psicológica que os homens-cis-heteronormativos têm de criarem enredos fictícios dados como realidade (vou repetir muitas vezes isso, ao longo da vida).

Ou para simplificar: de mentir para manipular e tirar proveito de uma situação.


Senti que histórica e socialmente, na minha perspectiva de mulher cis interracial, aquela letra deveria ser reescrita para colocações no feminino. Até que surgiu uma proposta para que eu fizesse a mística num Assentamento do MST, há um ano, relativa a uma ação conectada com o Dia Internacional das Mulheres.

A motivação foi tanta que, pela primeira vez, consegui transpor uma música para o violão de ouvido. Versão esta que está no clipe que fiz. O áudio da versão feminista “Acompanhada é bem melhor” foi enviado para o grupo dos Tambores do MST, na época, assim que terminei a gravação e adquiri alguma confiança para compartilhar aos demais, embora o registro tenha falhas no canto e execução da música.


No assentamento, resolvi interpretá-la com o pandeiro, pois percebi que o violão e minha insegurança não se adequariam bem ao ambiente. No dia da mística, lembro que caiu a minha ficha de que faria a apresentação de “Acompanhada é bem melhor”. Era algo simples, mas bateu o nervosismo. Comentei, meio que para quase ninguém ouvir, de cabeça baixa, pensativa: “Bateu a timidez. Eu invento as coisas, depois me arrependo…”, quase querendo desistir, minutos antes.

Vi que me filmaram, enquanto eu me apresentava. Ao final, fui elogiada. Sorri com o retorno positivo, enquanto, internamente, avaliava os pontos que não tinha gostado.


“Toda filha tem uma mãe / Pra boa mãe tem de ser filha / O meu verso é minha arma, compa* minha / O berimbau é meu gatilho”.

*Diminutivo de “companheira”, expressão utilizada por militantes do MST.

Escrito em 08 de março de 2023.

Edição de vídeo, voz e violão: Nanda Maia

Imagens: Cottonbro Studio

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